“Darfur is Dying” é o nome de um jogo de computador idealizado para sensibilizar os mais novos para a situação dramática que decorre no Darfur, Sudão.

// Context
O Sudão é o maior país de África e uma antiga colónia britânica que sofreu uma guerra entre o norte (árabe) e o sul (africano). Darfur é uma região do tamanho da França, situada no oeste do Sudão, que antes da colonização inglesa era independente de Cartum. Durante a guerra entre o norte e o sul, o exército de Cartum (norte) utilizou os jovens do Darfur para combater os grupos armados do sul (muitas vezes por meio de raptos de crianças e jovens nas aldeias).
Avalia-se pelo menos que 2,3 milhões de pessoas tenham sido obrigadas a deixar as suas casas e a procurar refúgio em campos onde dependem por completo das organizações humanitárias. Todos os dias morrem pessoas, a maioria crianças.
As organizações de ajuda humanitária têm sido também alvos frequentes das milícias, que tentam imobilizar a sua actividade, o que agrava ainda mais a situação delicada de milhões de pessoas refugiadas.
// Como surgiu
Lançado a 30 de Março de 2006, “Darfur is Dying” é classificado como um “serious game” e conta já com mais de 800 mil usuários desde então, sendo o primeiro jogador oficial o Joey Cheek, um jovem americano praticante de skate.
Estas variantes de “serious games” rompem com o estereótipo dos mundos imaginários e fantásticos habitados por tipos violentos, e propõem uma experiência inovadora: a de mergulhar, por instantes, o jogador nas crises do mundo real.
Desenvolvido em Flash e possível de ser jogado por qualquer pessoa que tenha acesso ao website, este jogo arrecadou o primeiro prémio do concurso Darfur Digital Activist Contest patrocinado pela MTVu em parceria com a Reebok Human Rights Foundation e com International Crisis Group, cujo intuito era o de alertar para o conflito em Darfur.
A Game Designer vencedora é Susana Ruiz e conta que “[...] a meta é chegar a essas pessoas que não lêem necessariamente o New York Times ou assistem a um documentário sobre Darfur“.
Susana contou com a colaboração de uma equipa de estudantes (Ashley York, Mike Stein, Noah Keating, Kellee Santiago) que frequentam o programa Interactive Media da Cinematic Arts School da Universidade de Southern Califórnia. Esta equipa passou a maior parte do tempo a falar com pessoas que tiveram experiências em Darfur e a reunir-se para discutir como conceber um jogo que fosse simultaneamente interessante de se jogar e uma ferramenta de defesa.
Ruiz afirmou que a sua criação foi influenciada pelo “Food Force”, um jogo publicado em 2005 pela United Nations World Food Programme.
Para completar a concepção do jogo a nível da programação contou com o apoio de uma empresa de desenvolvimento de Web e Aplicações – a interFuel.
// Como jogar
“Darfur is Dying” apresenta duas fases de jogo: a de ir buscar água e a de assegurar a vivência no campo. O objectivo do jogador é o de manter o funcionamento do campo durante 7 dias.

:: Fase 1
Na opção de ir buscar água, o jogador tem de escolher um representante dos refugiados apresentados e evitar a todo o custo as milícias Janjaweed ao esconder-se nas rochas ou arbustos. Para tal é necessário clicar na tecla “Spacebar” e aparecer a frase “YOU ARE HIDDEN!”, só assim tem-se a certeza de que se está realmente escondido. Para se deslocar os comandos utilizados são as setas “up”, “down”, “right” e “left”. O jogador orienta-se pelos quilómetros indicados no ecrã que apontam se está longe ou perto da fonte. O mesmo é indicado no regresso ao campo. Uma das dicas que o jogo fornece é de que as raparigas são mais eficientes de conseguir trazer a água e avisa ainda de que o homem adulto não o pode fazer pois é logo morto pelas milícias.
No caso de ser apanhado por estas, aparecerá algo a dizer: “Tu tornaste-te uma das centenas de milhares de pessoas que já perderam nesta crise humanitária” e surge um texto das consequências do ser capturado pelas milícias, como ser violada e raptada no caso das raparigas ou raptado e talvez morto, se for rapaz. Ao deparar-se com estas sequelas o jogador é levado a reconsiderar a sua estratégia – será que envia mais raparigas que são alvos fáceis de serem raptadas, violadas ou mortas ou envia rapazes que se escondem melhor mas que carregam menos água? É um dilema angustiante!

:: Fase 2
Na outra fase do jogo, o refugiado é levado para o campo onde terá de distribuir a água pelas casas, hortas e animais de modo a manter aquele em funcionamento durante uma semana inteira.
As tarefas consistem em:
> Obter comida: buscar água da bomba e regar as hortas das várias casas. Os jardins florescem e pode-se regressar para a colheita de comida;
> Construir abrigos: deitar a água nos lotes cheios de lixo para fazer tijolos e outros materiais necessários para a construção de abrigos;
> Obter mais água: clicar no botão do quadro “Forage for water” e voltar à primeira fase para obter mais água;
> Manter-se saudável: ir à clínica sempre que houver um aviso de que novos medicamentos e suplementos chegaram ao campo.
A dificuldade nesta fase reside nos constantes ataques das milícias, devido à crescente passagem do tempo, e que são avisados por um grande alerta vermelho que aparece no ecrã. Um ataque deles destrói estruturas, reduz e contamina a água e a comida, provoca estragos significativos no campo e abala a saúde do mesmo. Para evitar estes ataques clica-se no botão vermelho “Take Action” para descobrir as verdadeiras opções de acção no mundo real que conduzirão e ajudarão o jogador a agir no jogo.
Existe ainda um quadro, em baixo no ecrã, que aponta o nível de provisão de água e comida, o estado de saúde do campo, o nível de ameaça das milícias, a contagem dos dias passados e mais três botões: um de ajuda, outro de “Forage for water” para ir buscar mais água lá fora (fase 1) e o de “Take Action”.
Durante o jogo é-se confrontado frequentemente com trágicas histórias de situações de refugiados e com a destruição progressiva provocada pelos Janjaweed, ao passar o cursor pelos diversos pontos de interrogação espalhados pelo campo.
Uma vez conseguida a sobrevivência do campo por 7 dias, o jogador sai vencedor deste universo digital de Darfur. Contudo é óbvio que o conflito real não termina da mesma forma. Homens, mulheres e crianças têm vivido nestas condições desde 2003.
// Objectivo e Análise
Em suma, o intuito deste jogo não é o entretenimento, mas antes motivar os jogadores a terem uma atitude e fazerem algo pelo drama real de Darfur.
O facto de o jogo balançar a interacção com a informação resulta bastante bem na transmissão da mensagem principal. Indica ainda outros pontos de informação, no site, que explicam com maior promenor toda a situação trágica.
“Darfur is Dying” tem sido alvo de debate pela sua natureza e impacto. Estudantes entrevistados pela BBC acerca do jogo, variam as suas opiniões entre: tudo o que possa despoletar um debate sobre Darfur e seus temas associados, são um ganho para os defensores; e todos aqueles que pensam que o jogo simplifica demasiado a situação complexa vivida em Darfur e como tal falha na passagem da informação acerca do conflito. Este jogo foi também criticado devido ao patrocínio da MTVu, pois defendem ter sido uma estratégia de marketing a favor desta. O site oficial não utiliza a palavra “game”, mas refere a “Darfur is Dying” como uma “narrative based simulation”.
À luz de outros jogos “políticos” recentes cujos objectivos seriam difundir estereótipos ofensivos, é importante pensar neste jogo e como ele comunica o seu ponto de vista. É um jogo bastante inteligente no tema que aborda e na eficiente transmissão do mesmo.
A vida real não é nenhum jogo, “e se fossemos nós?”
Daniela Torres #3619

